A boa investigação assenta numa cadeia de decisões metodológicas.
O rigor metodológico depende da coerência ao longo de todo o processo de investigação. A pergunta, a população, as medições, o desenho do estudo, a análise e a interpretação devem estar alinhados com a inferência que o estudo pretende sustentar.
A que deve a investigação responder exatamente?
A investigação deve começar pela pergunta, não por um método preferido ou por um conjunto de dados disponível. Uma ideia inicial deve ser transformada numa pergunta de investigação clara, delimitada e suscetível de resposta, capaz de orientar o restante estudo.
Isto implica clarificar o que se pretende compreender ou estimar, por que razão a pergunta é relevante e se o seu âmbito é realista. A partir daí, a pergunta pode ser traduzida em objetivos específicos e, quando adequado, em hipóteses e num plano de estudo.
A pergunta de investigação é a primeira decisão metodológica.
A população, a amostra e as medições determinam o que o estudo nos pode dizer.
Uma vez definida a pergunta, o passo seguinte consiste em definir a população à qual se pretende aplicar os resultados e a amostra que será efetivamente estudada. Os critérios de seleção, a amostragem e o recrutamento influenciam a forma como os resultados podem ser interpretados e generalizados.
Ao mesmo tempo, o estudo necessita de medições que representem os conceitos de interesse com validade e fiabilidade suficientes. Variáveis ou instrumentos mal escolhidos podem limitar um estudo, mesmo quando o desenho e a análise são sólidos.
As escolhas relativas à população e às medições definem o âmbito e a interpretação das estimativas obtidas.
Perguntas diferentes requerem desenhos de estudo diferentes.
Uma vez definidas a pergunta, a população e as medições, o desenho do estudo determina como será gerada a evidência. A escolha entre abordagens observacionais e experimentais — e entre desenhos como estudos de coorte, transversais, caso-controlo ou aleatorizados — deve decorrer daquilo que a investigação pretende estabelecer.
Um bom desenho cria um percurso credível entre a pergunta de investigação e o resultado. Deve tornar explícitos a comparação, a temporalidade e a fonte da evidência, equilibrando a robustez metodológica com a viabilidade.
O desenho do estudo determina as inferências que os dados obtidos podem sustentar.
O erro aleatório e o erro sistemático afetam diferentes dimensões da inferência.
Todos os estudos estão sujeitos a erro, mas nem todos os erros são iguais. O erro aleatório determina a precisão com que um efeito ou uma associação pode ser estimado. O erro sistemático determina se essa estimativa está centrada no valor verdadeiro.
Um bom planeamento metodológico considera ambos: reduzir a variabilidade aleatória sempre que possível, identificar potenciais fontes de distorção sistemática e tornar visível, na interpretação, a incerteza que permanece.
A precisão reflete a incerteza aleatória; a validade depende de o erro sistemático ter ou não distorcido a estimativa.
A implementação afeta a validade do estudo e a qualidade dos dados.
Problemas de implementação no recrutamento, na medição ou na recolha de dados podem comprometer um desenho de estudo que, em princípio, seja adequado. O protocolo deve, por isso, ser traduzido em procedimentos que possam ser aplicados de forma consistente e de acordo com o previsto no contexto real.
Isto implica antecipar a viabilidade, os aspetos éticos, os processos operacionais, a qualidade dos dados e os controlos necessários para assegurar que o estudo é conduzido de acordo com o planeado.
A validade do estudo depende, em parte, do grau em que a implementação corresponde ao desenho planeado.
A análise e a interpretação devem manter-se alinhadas com a pergunta de investigação e o desenho do estudo.
A análise deve decorrer da pergunta de investigação e do desenho do estudo, e não ser tratada como um exercício técnico independente no final do processo. Uma estratégia analítica clara ajuda a distinguir comparações planeadas de resultados exploratórios, torna explícitos os pressupostos e estabelece um percurso defensável entre os dados e as conclusões.
A interpretação exige mais do que apresentar resultados estatísticos. Implica considerar a magnitude dos efeitos, a incerteza, a robustez, as possíveis limitações e se os resultados sustentam efetivamente as afirmações feitas. A comunicação deve tornar esse raciocínio transparente para o público a que se destina.
A interpretação não deve ir além daquilo que o desenho, os dados e a análise permitem sustentar.
Coerência metodológica
Cada decisão metodológica condiciona as que se seguem. A coerência metodológica consiste em manter uma ligação defensável entre a pergunta de investigação, o desenho, a análise e uma interpretação sustentada pela evidência.